Tuesday, September 1, 2009

São Paulo e as mudanças climáticas

Quando falamos em mudanças climáticas, as imagens que vêm à mente são as inundações causadas pelo Katrina em New Orleans, o tsunami da Ásia ou o tufão em Taiwan. Mas o aquecimento global também afeta a nossa cidade, pode apostar.Pensando nessas mudanças e preparando-se para o encontro da COP-15 em Copenhagen, a prefeitura de São Paulo realizou, no último sábado (29), o I Encontro Municipal sobre Mudanças Climáticas.

Realizado no auditório do MAC/USP, no Ibirapuera, o evento teve a presença de Eduardo Jorge, Secretário Municipal do Meio Ambiente. Além do Secretário, estavam presentes: Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP; Fábio Feldman, coordenador do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas; Carlos Alberto Matos, do WWF; e Sérgio Leitão, coordenador de campanhas do Greenpeace Brasil.

O evento teve como inspiração a contagem regressiva dos 100 dias para Conferência da ONU sobre o clima, a ser realizada entre 7-18 de dezembro, em Copenhagen. No Ibirapuera foi instalado um dos oito relógios a marcarem a contagem para o evento na Dinamarca.

Eduardo Jorge abriu o Encontro com uma frase que resume bem a expectativa sobre a COP-15: “o aquecimento global é o problema social/econômico/ambiental mais grave em todo mundo”. De acordo com o Secretário, “nao podemos deixar a responsabilidade somente para os países desenvolvidos”.

O enfrentamento às mudanças climáticas demanda uma forma diferente e viver, produzir e consumir. Irá exigir mudanças de rotinas e hábitos. Faz sentido, quando pensamos que 70% das emissões de gases na cidade são provenientes de combustíveis fósseis (leia-se: carro) e outros 20% são emitidos pelas 14 mil toneladas de lixo produzidas diariamente em São Paulo.

Com o intuito de se preparar para a nova realidade, São Paulo conta com uma Lei sobre mudanças climáticas desde 5 de junho. Uma das consequências foi a captação do metano produzido nos aterros sanitários da cidade: a medida causou uma redução de 20% na emissão de gases e o combustível é usado para alimentar dois biodigestores. Mas, como bem frisou Eduardo Jorge, a coletiva seletiva em São Paulo ainda é ineficiente. Isso só faz aumentar a necessidade de iniciativas para educar e conscientizar a população.

Fábio Feldmann fez um histórico das reuniões da ONU sobre  clima, a começar pela conferência “O homem e o ambiente”, realizada em 1972. Lembrou ainda a posição brasileira sobre a relação entre desenvolvimento e meio ambiente: “O Brasil precisaria se desenvolver e crescer, para depois pensar no ambiente”, dizia-se à época.

No entanto, no fim dos anos 80, a descoberta do buraco na camada de ozônio chama a atenção para o aquecimento global e as emissões de gases do efeito-estufa. Já no Brasil, o foco da discussão voltou-se para o desmatamento da Amazônia, que atingiu a marca de 200 mil quilômetros quadrados (equivalente à quatro Áustrias).

Em 1992, a ONU realiza a conferência Rio/92 (maior das reuniões da ONU) e cria a Agenda 21 – acordo sobre desenvolvimento sustentável. Quatro anos antes, havia sido criado o Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas e biodiversidade (IPCC).

Segundo Feldmann, há grande probabilidade (98%) de existir o aquecimento global e a previsão mais otimista prevê uma elevação de 0,5 a 3,8 graus num período de 100 a 500 anos. Para impedir esse aquecimento, seria necessário reduzir 60% das emissões dos gases do efeito-estufa. Isso não foi feito e iniciativas como o Protocolo de Kyoto (específico sobre as emissões de gases do efeito-estufa) falharam. A principal dificuldade é o estabelecer metas para as reduções e um calendário para implementar as medidas.

Temos 92 meses – menos de 8 anos – para AGIR. A partir desse prazo, se não forem implementadas medidas contra o aquecimento global, o dano será irreversível, segundo o IPCC. O protocolo de Kyoto serve como comparação: o acordo foi assinado em 1992 e implementado somente em 2007. Para a COP-15, a idéia é estabelecer um teto de aumento em 2 graus entre 2007 e 2050; isso exigiria que as emissões fossem cortadas até um patamar idêntico à 20% das emissões verificadas em 1990.

Um relatório publicado pelo economista Nicholas Stern, em 2006 alertava: “o custo de não tomar as medidas contra as mudanças climáticas serão mais caros do que os gastos para implementar as mudanças”. Uma das conclusões do relatório: com um investimento de apenas 1% do PIB Mundial se pode evitar a perda de 20% do mesmo PIB num prazo de simulação de 50 anos.

Dentre as dificuldades, estão a recusa norte-americana em aprovar um acordo se comprometendo à reduzir as emissões. O governo Obama aprovou uma lei que só entra em vigor a partir de 2025. Os países em desenvolvimento relutam em não ratificar um acordo: China (maior emissor) e Brasil (5o maior emissor) alegam que a redução iria comprometer o crescimento econômico.

Cerca de 75% das emisões basileiras provém do desmatamento. Eis mais um motivo para lutar pela manutenção da floresta. Mas as emissões não relacionadas com o desmatamento crescem a cada dia. É a prova cabal da necessidade de alternativas aos combustíveis fósseis e de uma produção e consumo sustentáveis.

[Via http://charlesnisz.wordpress.com]

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